1.5.14

Arte Feia

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Tudo bem que eu sou uma pessoa fácil de se revoltar. Mas ontem eu li numa revista – não pela primeira vez, infelizmente – que a arte feia é mais honesta, porque não foge de retratar a feiúra que já está na sociedade. Ela não se esconde das injustiças, dizem. Para mim, parece que qualquer pessoa simples acharia isso um absurdo, afinal a humanidade não produz beleza porque quer esconder a feiúra, produz beleza justamente porque quer combater a feiúra. Para o meu alívio, não estou sozinho, tem umas pessoas simples de quem eu gosto bastante que provavelmente compartilhariam da minha indignação. A Adélia Prado, numa palestra incrível de que eu sempre falo, diz que "beleza não é luxo, é necessidade". A beleza não aliena as pessoas, segundo a poeta, "é o contrário, ela traz para o real". O C. S. Lewis, então, diz o seguinte dos advogados do feio: "eles nunca arrumavam nada, ao contrário, só destruíam. Quando encontravam um prato sujo, eles não o lavavam, mas o quebravam; quando as suas roupas estavam sujas, queimavam-nas."*. A gente pode achar que dá para combater a feiúra do mundo com mais feiúra, mas, nesse caso, parece que a melhor resposta é mesmo aquela mais óbvia, quer dizer, quando abdicamos do belo, só o que estamos fazendo é abrir mão da única coisa que poderia realmente nos salvar.

* The Pilgrim's Regress, edição de 1992, p. 144. Tradução nossa.

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